
Alguém alguma vez já estabeleceu uma comparação entre a música e o vírus? Digo isto, é claro, desconsiderando todas as críticas sérias sobre esses rudimentos atuais, comumente chamados música ou “batidão”, que se utilizam da metáfora do infeccioso para lembrar como as letras dessas vertentes são criativas e como são harmônicas suas melodias. Mas não vim aqui escrever uma crítica e sim uma comparação mais profunda.
Estava eu em uma interessantíssima aula de cálculo I, as quais sempre me dão a oportunidade para pensar em tudo o mais que não seja seu conteúdo, pensando numa letra de música recém-composta, quando um de meus colegas sutilmente espirra a meu lado. Não tenho certeza se foram meus pensamentos anteriores ou o choque do barulho de uma granada explodindo perto de mim, que as duas idéias se uniram e a comparação veio natural. A música e os vírus se comportam de forma bem semelhante.
Não sei se alguns dos leitores já procuraram saber sobre isso ou se ainda lembram, mas o vírus é apenas uma cápsula orgânica com material genético em seu interior; ele por si só, não se reproduz nem sintetiza nada. Resumindo, não tem metabolismo próprio e depende unicamente de infectar uma célula específica para realizar esses processos.
A música é assim, de uma forma bem mais sutil, claro. É algo infecioso que, existindo por existir, não opera nada, não muda nem se desenvolve. Mas a música nunca será essa massa inerte, ela tem o poder de se fundir a nós, nos controlar, nos alegrar e fazer pensar nas coisas simples e belas ou nas tristes. Ela nos faz lutar ou gritar por paz. A música nos lembra da nossa humanidade.
A música não vive senão por nós, nós também não vivemos sem ela.
Por André MaiaImage: Michal Marcol / FreeDigitalPhotos.net